Do WhatsApp ao ChatGPT: a IA como conselheira política de mulheres conservadoras na eleição de 2026
Patrícia Pavesi
13 de fevereiro de 2026
Antes de tudo, um aviso metodológico (sem ele, a antropologia puxa minha orelha): o que eu conto aqui não é “o Brasil”, nem “as mulheres”, nem “a direita” em geral. São impressões orientadas por dados localizados de uma etnografia longitudinal com mulheres conservadoras no Espírito Santo, sobretudo na Região Metropolitana da Grande Vitória, acompanhando, desde 2017, como práticas políticas se misturam ao uso cotidiano de tecnologias digitais.
Justamente por serem localizadas, essas cenas ajudam a enxergar uma transformação maior e o coração dela, em 2026, tem nome e interface: ChatGPT (e outras IAs conversacionais similares, como Gemini e Claude). Não como “arma mágica”, mas como agente que entra na conversa quando ninguém mais aguenta conversar.
Nas nossas observações no Data Kula Lab, 2018 aparece como um marco, quando a política circulou por WhatsApp em lógica de encaminhamento, choque e repetição e muita propaganda computacional. A mensagem te achava, mesmo que você estivesse só tentando ver a foto dos seus afilhados.
Em 2026, o que pode acontecer é um deslocamento no qual, em vez de a política só chegar em forma de enxurrada (push), cresce o movimento de pessoas irem até a IA (pull) para perguntar, checar e “traduzir” a disputa e, nesse “só vou tirar uma dúvida rapidinho”, um chatbot como o ChatGPT pode acabar virando um intérprete discreto da decisão de voto (bem mais silencioso que o grupo da família).
E aqui entra o detalhe etnográfico de que, quando a pergunta é feita no privado, num tom de “me explica”, a pessoa não sente que está entrando numa arena. Sente que está entrando num consultório (só que o jaleco é uma interface de conversa por texto com emojis e voz opcionais.)
No ES/Brasil, um achado recorrente na nossa etnografia digital é que o engajamento político de mulheres conservadoras é atravessado por uma reinvenção casa/rua, onde WhatsApp e Instagram funcionam como extensões da sala de visitas (“Casa Digital” e “Casa Aumentada”), filtrando as “incertezas da rua” num ambiente de confiança e lealdade pessoal.
Isso importa porque a IA generativa entra nesse ecossistema não só como ferramenta, mas como coagente que participa do trabalho de “domesticar” o mundo político, agora em forma de resposta organizada, educada, aparentemente neutra.
Outro elemento observado em pesquisas similares em outros países é o “burnout cívico”, que não é “apatia”, mas um afastamento estratégico do debate público por exaustão emocional num ambiente percebido como tóxico, com tantas brigas que em muitos casos, dividiram “famílias”, findaram a amizades de longa data ou tornou a convivência em condomínios, insuportável.
As vidas cotidianas das mulheres são atravessadas por redes de cuidado e por conflitos em espaços como família, trabalho e religião e isso pode favorecer o uso da tecnologia como autopreservação. Nesse contexto, consultar uma IA como o ChatGPT vira espaço seguro, um lugar privado para buscar informação e validação sem briga em grupo de WhatsApp da família, do condomínio ou da igreja.
É aí que a IA deixa de ser “app” e vira assistente coprodutor de decisão.
A persuasão conversacional pode funcionar mesmo, porque a IA consegue oferecer uma coisa rara no ecossistema político atual: densidade de informação com tom calmo, comfort e sem “lacração”. E isso é perigoso porque a persuasão não depende só de estar certo. Depende de parecer que faz mais sentido que a opinião de outras pessoas.
Muitos estudos com agentes inteligentes como a Alexa e a Replika destacam também um jogo de perde-e-ganha entre persuasão e precisão porque quando a IA é “treinada” pra te agradar e te convencer, ela pode acabar mandando bem na confiança e relaxando na precisão, e aí, corre o risco de inventar informações (as famosas “alucinações”) só pra encaixar direitinho no que você está preocupado ou querendo ouvir.
Ou seja, o oráculo pode ser gentil, bem escrito, e ainda assim estar errado, o que politicamente, é uma combinação explosiva.
Nos nossos dados, embora coletados a partir do WhatsApp e Instagram, aparecem perfis e gatilhos que ajudam a entender como a IA pode operar como um agente poderoso de voto em 2026, especialmente entre mulheres conservadoras capixabas.
Alguns padrões ajudam a visualizar, sem transformar em caricatura, porque etnografia serve justamente pra complicar caricaturas. Por exemplo, entre as lideranças evangélicas e redes de fé, a política aparece como testemunho, defesa da moralidade, da maternidade, da luta de mães “atípicas”. A IA pode entrar em cena pra escrever ou dar um melhorada em falas que misturam linguagem de igreja com recado político e também pra “explicar” o que está acontecendo no mundo pelo filtro dos valores (tipo certo/errado, família, moral, fé).
Já as “tias do zap” (um rótulo bem pejorativo, diga-se de passagem) costumam trazer mais forte as preocupações com ordem, tradição e proteção da família. Nesse contexto, a IA entra como um tipo de filtro/“tradutor” porque ela ajuda a “amansar” a confusão da política da rua e devolver tudo em formato mais organizado, com cara de seguro e fácil de entender.
Entre as empreendedoras (são muitas) guiadas por uma lógica bem “mérito e esforço” (tipo “trabalha e confia”), as perguntas para a IA podem vir em um tom de checagem, tipo, “isso fecha a conta?”, “faz sentido pra quem trabalha e paga boleto?”. Aí o chatbot entra quase como um contador chato (mas legalzinho e educado) da decisão: ele coorganiza os argumentos, compara “prós e contras” e dá aquela sensação de que a escolha está sendo feita de um jeito bem racional, “com planilha na cabeça”.
Em paralelo, surge um fenômeno que chamado “gerrymandering digital afetivo/cognitivo” que é a reorganização de públicos não por geografia, mas por “distritos” emocionais, por exemplo, maternidade e fé puxando para narrativas de indignação moral, segurança pública puxando para narrativas de medo.
E entre lideranças políticas “femininas”, não feministas (categoria “nativa”) o Instagram ajuda a construir autoridade política através do uso de imagens cuidadas e legendas (confessionais mesmo), criando “intimidade virtual”, algo que a IA também pode simular e amplificar no registro da conversa.
Algumas empresas dizem ter colocado “travas” pro uso de IA em eleição. A OpenAI, por exemplo, veta usar seus modelos pra fazer campanha personalizada e pra criar chatbots que fingem ser candidatos, a Anthropic costuma empurrar perguntas políticas para fontes consideradas mais confiáveis e o Google tem limitado respostas sobre candidatos e sobre como/onde votar, apostando em “prebunking” (que é tentar vacinar o usuário antecipadamente contra boatos e manipulações).
Só que, do ponto de vista da prática social (onde a etnografia mora), isso não elimina o problema central, pois a IA já está no cotidiano e a consulta privada individual (“pessoal”) pode ganhar estatuto de “fonte confiável”, ainda mais quando todo mundo já está de saco cheio e qualquer conversa vira briga.
Se a IA estará nas eleições e, acreditamos que sim, e você sentiu alívio porque “finalmente alguém falou sem brigar”… ótimo. Só lembre-se que alívio também pode ser técnica de persuasão.
Na nossa etnografia digital com lideranças conservadoras, a eleição de 2024 já apareceu como política em modo onlife, porque no dia a dia não dava pra separar o que era “da rua”, o que era “da casa” e o que era “da internet”. E, olhando para 2026, uma hipótese que começa a fazer sentido é que a IA vire mais um “atalho” nessa mistura como um agente consultado para reforçar sensações de ordem e segurança e também aquele reconhecimento afetivo do tipo “alguém finalmente me entende”.
Mas gente, isso é um recorte, situado, “localizado”, construído por convivência e acompanhamento longitudinal. Não dá para generalizar como se fosse fotografia do país inteiro. O que dá para fazer é usar esses dados localizados como nos ajudar a pensar como o “ChatGPT-oráculo” pode coparticipar da vida política não como espetáculo público, mas como conversa privada.
E, em democracia, a conversa privada é onde muita coisa se decide, inclusive o que vai parecer “minha escolha” quando, na verdade, foi uma escolha cuidadosamente coconstruída com uma interface educada demais para ser questionada.
Outra coisa, esse textão não é análise política, não tem pretensão de ter validade acadêmica. É uma reflexão que foi motivada pela discussão que fizemos, eu e estudantes de graduação no âmbito da disciplina Antropologia e Tecnologias com recorte em Antropologia da Inteligência Artificial e na pesquisa que estamos fazendo desde 2017.
AntropoXENO - Blog de @ntropologIA
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PAVESI, Patrícia. Do WhatsApp ao ChatGPT: a IA como conselheira política de mulheres conservadoras na eleição de 2026. AntropologIA. AntropoXENO - Blog @ntropologIA. 13 fev 2026.


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